Caminho de Santiago - Um Relato da Alma

Daniella Camargos

Para quem está querendo saber um pouco mais sobre as experiências de quem vivenciou o Caminho de Santiago recentemente, a nossa cliente e amiga Daniella Camargos conta um pouquinho da história dela pra gente. 

No dia 19/04/2017 embarquei para o que seria uma das experiências mais incríveis da minha vida, o Caminho de Santiago. Adrenalina a mil e muita expectativa para iniciar o Caminho Francês. Comecei em Saint Jean Pied de Port e meu plano era fazer o Caminho em 30 dias. O primeiro dia foi uma prova de resistência; superar a longa subida dos Pirineus e a descida íngreme e cheia de pedras (isso ninguém me contou).

Passei com louvor, mas cheguei a Roncesvalles mortinha, doida para tomar um banho e esticar as pernas. O único albergue da cidade estava lotado e eu e mais 3 brasileiros fomos dormir em lugar tipo um anexo. A experiência não foi das melhores, mas o importante era que o tão temido Pirineus tinha ficado para trás.

Sim!!! Eu estava no Caminho!!! O segundo dia começou bem cedo e fui até Larrasoana. Passei por lugares lindos e o Caminho começava a dar sinais de que seria mais puxado do que eu imaginava.

Os dias no Caminho começam cedinho. Por volta de 5 horas os peregrinos já começam a levantar e se preparar para o longo dia de caminhada.

No terceiro dia cheguei a Pamplona, uma das grandes cidades ao longo do Caminho. Pamplona é linda e o albergue que fiquei era sensacional!!! Peregrinos do mundo inteiro, cada um falando na sua língua, mas todos se entendiam. Ahh, já estava entendendo como funcionava esse tal de Caminho de Santiago.

O medo que eu tinha antes de iniciar o Caminho, era me perder pela estrada a fora, mas ele é todo sinalizado com setas amarelas. O olho e o cérebro já entendem, procuram e acham as setas. E seguindo cheguei a Puente de La Reina, uma cidade muito importante e com um significado especial.

Diz a lenda que o peregrino ao passar a ponte separa o material do espiritual. Mas detalhe, eu passei pela ponte e não percebi!!! Depois de quase 5 km andados perguntei a um peregrino: “a ponte está longe? Ele riu e me respondeu: “Ih... já ficou para trás a muito tempo”... Bem, levei na esportiva e dei sequência ao meu dia de caminhada.

Estella foi minha próxima parada e ali eu percebi que as bolhas resolveram aparecer. Fazer o que? Faz parte de Caminho esses perrengues. Meu sexto dia, foi o dia que “briguei” com o Caminho. Até Los Arcos me questionei o motivo de estar ali. Dor, frio, bolhas, queria pegar meu cajado e sair tacando em todo mundo. Um “Buen Camino” estava me irritando. Não aguentava mais ver campos de trigos. Depois fui entender que essa “briga” é super comum e só assim entramos realmente no Caminho de Santiago.

Ao longo dos dias passei por pueblos e cidades incríveis, me sentia dentro de um livro de história ou em um conto de fadas. Igrejas e construções milenares, mosteiros cheio de mistérios e castelos enormes!!!

A rotina de todo peregrino é acordar cedinho, pegar a mochila e o cajado, caminhar, caminhar, caminhar e chegar até o próximo destino. Um banho passa a ter um significado enorme e uma cama confortável tem seu valor. Depois de um bom banho o próximo passo é procurar um bar que tenha o “menu peregrino” (entrada, prato principal, sobremesa e um bom vinho). Alguns peregrinos optam por comprar as coisas e fazer sua comida no próprio albergue. São os jantares coletivos; momento único, onde a troca de experiência corre solta.

As cidades onde me alberguei. Foram: Viana, Logrono, Ventosa, Azofra, Granon, Tosantos, Burgos, Hontanas, Itero Del Castilo, Villacazar de Sirga, Calzadilla de La Cueza, Sahagun, Relliegos, Virgen del Camino, Astorga, El Ganso, Riego de Ambros, Cacabelos, La Portela de Valcarce, Alto do Poyo, Samos, Barbadelo, Portomarin, Palas Del Rey, Ribadiso, Pedrouso e Santiago de Compostela.  Cada uma delas como suas particularidades, com amigos para a vida, com albergues bons e outros mais ou menos. Cada uma cm sua história.

Ao longo do meu Caminho conheci pessoas incríveis, histórias de vida sensacionais. Ri muito, chorei de alegria, de saudade, de tristeza, de dor. Rezei, cantei, dancei, ouvi o canto do cuco, vi rebanhos de ovelhas, pastos com vaquinhas de franja, flores lindas, plantações, ouvi meu coração, senti minha respiração, me elevei....

Não consigo listar aqui tudo que o Caminho me ensinou. Mas o que trouxe de volta comigo é que conseguimos viver com o essencial, que tem muita gente boa mundo a fora, que o pouco que conseguimos levar na mochila conseguimos ajudar nosso próximo, que um sorriso pode fazer toda diferença na vida de alguém, que a vida é simples e que todos somos iguais.

A saudade é inevitável e a vontade de fazer um novo Caminho também.  Esses 34 dias de caminhada foram mágicos. E chegar a Santiago de Compostela e participar da missa do peregrino foi muito especial.

Nem as dores, nem as bolhas nem o cansaço foram capazes de tirar a alegria e o privilégio de fazer o Caminho de Santiago. Serei uma eterna peregrina, super agradecida por essa oportunidade única! Buen Camino pois a vida continua.

 

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